A DEPRESSÃO PÓS-PARTO E DESIGUALDADE

A influência dos Determinantes Sociais na Saúde Mental de Mulheres Vulneráveis:

Autores

  • Arthur Almeida Barros UNDB
  • Felipe de Castro Mendes Centro Universitário UNDB

Palavras-chave:

Depressão, Determinantes Sociais, Vulnerabilidade social, Mulheres

Resumo

Arthur Almeida Barros[1]

Felipe de Castro Mendes[2]

Me. Maurício José Morais Costa[3]

 

RESUMO

 

Este estudo aborda o caso de A.M.S., mulher negra de 38 anos, desempregada e de baixa renda, com comorbidades de diabetes, hipertensão e hipotireoidismo, além de depressão pós-parto. A hipótese é que os determinantes sociais, como raça, gênero e condição socioeconômica, contribuem significativamente para a negligência no tratamento da depressão, agravando o quadro clínico. O objetivo deste trabalho é correlacionar os marcadores sociais com a adesão ao tratamento da depressão pós-parto, especialmente em contextos de vulnerabilidade. A metodologia consistiu na análise do caso clínico, destacando a interação entre as condições socioeconômicas da paciente e a falta de adesão ao tratamento prescrito. Os resultados sugerem que a condição de mulher negra e desempregada, somada à sobrecarga de múltiplas comorbidades e à falta de suporte adequado em saúde mental, está diretamente associada à piora do quadro depressivo. Fatores como a falta de recursos financeiros e o acesso limitado aos serviços de saúde mental contribuem para a negligência ao uso de medicamentos e tratamentos essenciais. Conclui-se que os determinantes sociais desempenham um papel central no manejo da depressão pós-parto, reforçando a necessidade de estratégias de saúde pública que levem em consideração esses fatores para melhorar a adesão ao tratamento e o bem-estar de populações vulneráveis.

 

Palavras-chave: Depressão pós-parto. Determinantes sociais. Negligência ao tratamento. Vulnerabilidade social. Mulheres.

 

1 INTRODUÇÃO

 

A depressão pós-parto (DPP) é uma condição de saúde mental que afeta entre 10% e 20% das mulheres no período pós-natal, impactando negativamente não apenas o bem-estar da mãe, mas também o desenvolvimento emocional e físico da criança (O'Hara; McCabe, 2013). Pesquisas indicam que os determinantes sociais, como raça, gênero e classe socioeconômica, exercem uma influência significativa sobre a prevalência e a gravidade da DPP, exacerbando suas consequências em grupos vulneráveis (WHO, 2014; Almeida; Nogueira, 2020). Mulheres negras e de baixa renda, como o do caso apresentado., enfrentam uma sobrecarga dupla de vulnerabilidade: tanto os fatores sociais quanto o acesso inadequado a serviços de saúde mental contribuem para a negligência no tratamento e para o agravamento de comorbidades, como diabetes e hipertensão (Bailey et al., 2019).

Estudos apontam que mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica têm 3 a 4 vezes mais chances de desenvolver depressão pós-parto em comparação com aquelas de classes mais altas (Howard et al., 2014). A justificativa para este estudo está na necessidade de explorar como os determinantes sociais influenciam diretamente a adesão ao tratamento da DPP e o manejo de comorbidades, especialmente em mulheres negras de baixa renda. Com base na teoria dos determinantes sociais da saúde, que destaca a relação entre condições socioeconômicas e disparidades em saúde (Marmot; Wilkinson, 2005), esta pesquisa busca entender as barreiras que agravam o quadro de pacientes nesse contexto., e como políticas de saúde pública podem ser direcionadas para reduzir essas iniquidades.

 

2 OBJETIVOS

 

2.1 Objetivo Geral:

 

Investigar a influência dos determinantes sociais na negligência ao tratamento da depressão pós-parto em mulheres negras de baixa renda, a partir do estudo de casos clínicos como o apresentado anterior.

 

2.2 Objetivos Específicos

  1. a) Analisar como dificuldades econômicas influenciam a experiência da depressão pós-parto, afetando o engajamento no tratamento.
  2. b) Identificar o papel do racismo e das barreiras culturais na adesão ao tratamento.
  3. c) Contrastar os efeitos de discriminações e estresse crônico na saúde mental de mulheres vulneráveis.

 

3 METODOLOGIA

 

Este estudo utilizou uma abordagem qualitativa e exploratória, com foco nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), para investigar o impacto dos determinantes sociais na adesão ao tratamento da depressão pós-parto em mulheres negras de baixa renda. Primeiramente, foi realizada uma revisão da literatura sobre depressão pós-parto e determinantes sociais da saúde, priorizando artigos acadêmicos, relatórios de saúde pública e diretrizes de organizações renomadas, com ênfase em publicações dos últimos dez anos. As buscas foram realizadas em bases de dados como PubMed e Google Scholar, utilizando descritores que abordam temas de saúde mental, condições sociais e vulnerabilidade em serviços de atenção primária.

Na segunda etapa, realizou-se a análise de dados secundários de registros de prontuários e relatórios coletados nas UBS, além de estatísticas do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estes dados permitiram identificar a prevalência da depressão pós-parto entre as mulheres atendidas e correlacionar com variáveis como raça, nível socioeconômico e adesão ao tratamento. Os dados foram organizados em gráficos e tabelas para facilitar a compreensão da relação entre determinantes sociais e a saúde mental das pacientes.

Foi, então, conduzido um estudo de caso detalhado com a paciente A.M.S., uma mulher negra de 38 anos, portadora de múltiplas comorbidades, atendida na UBS local. Utilizando entrevistas semiestruturadas, exploraram-se temas como barreiras ao acesso a serviços de saúde, suporte social e dificuldades na adesão ao tratamento medicamentoso. As entrevistas permitiram uma análise aprofundada das experiências da paciente que deu início ao trabalho., refletindo como os fatores sociais impactam sua saúde mental e adesão ao tratamento.

A análise dos dados coletados seguiu a técnica de análise de conteúdo, permitindo a identificação de categorias temáticas, como estigmas sociais, barreiras econômicas e influências culturais, essenciais para compreender o contexto de mulheres em situação de vulnerabilidade atendidas nas UBS. Todos os procedimentos éticos foram rigorosamente respeitados, incluindo o consentimento informado da paciente, garantindo sua privacidade e confidencialidade ao longo do estudo.

 

4 RESULTADOS

 

Os resultados da pesquisa revelaram informações significativas sobre a influência dos determinantes sociais na negligência ao tratamento da depressão pós-parto em mulheres negras de baixa renda atendidas em Unidades Básicas de Saúde (UBS). Durante a revisão da literatura, foi possível identificar que a depressão pós-parto é uma condição prevalente, afetando aproximadamente 15% a 20% das mulheres no Brasil, com índices ainda mais elevados em populações vulneráveis. A literatura também destacou que os determinantes sociais, como condição econômica, acesso à educação e suporte social, desempenham um papel crucial na saúde mental dessas mulheres.

No que diz respeito aos dados secundários coletados nas UBS, a análise indicou que entre as 150 mulheres que buscaram atendimento durante o período de seis meses, cerca de 30% apresentavam sinais de depressão pós-parto, conforme avaliação clínica. Dentre essas, observou-se que a maioria enfrentava múltiplas dificuldades, como a falta de suporte familiar, dificuldades financeiras e baixa escolaridade. Apenas 40% das mulheres diagnosticadas com depressão estavam em tratamento regular, evidenciando uma taxa alarmante de negligência ao uso de medicamentos.

O estudo de caso da paciente destacou as barreiras enfrentadas no acesso e na adesão ao tratamento. Apesar de ter acesso aos serviços de saúde e à medicação necessária, a paciente relatou sentir-se sobrecarregada com as responsabilidades maternas e as dificuldades financeiras, o que resultou em sua negligência ao uso dos medicamentos prescritos. A paciente mencionou ainda a falta de apoio emocional e psicológico, que a impediu de buscar a ajuda necessária.

A análise qualitativa dos dados obtidos por meio das entrevistas revelou temas recorrentes, como o estigma associado à saúde mental e a sensação de inadequação social. Muitas mulheres relataram medo de serem julgadas por buscar ajuda, o que contribuiu para a manutenção da depressão e a recusa em iniciar ou continuar o tratamento. Além disso, a falta de informação sobre a depressão pós-parto e suas consequências prejudicou a adesão ao tratamento, reforçando a necessidade de campanhas educativas e de conscientização nas UBS.

Esses resultados evidenciam a interconexão entre determinantes sociais e saúde mental, reforçando a urgência de intervenções direcionadas que considerem as particularidades das mulheres atendidas nas UBS. As conclusões sugerem que, para melhorar a adesão ao tratamento da depressão pós-parto, é essencial abordar não apenas as questões médicas, mas também os aspectos sociais que influenciam a saúde mental dessas mulheres.

 

5 CONCLUSÃO

 

A pesquisa realizada sobre a depressão pós-parto em mulheres negras de baixa renda atendidas em Unidades Básicas de Saúde (UBS) revelou a complexidade da relação entre os determinantes sociais e a saúde mental. Os resultados demonstraram que a prevalência da depressão pós-parto é alarmante nessa população, evidenciando que cerca de 30% das mulheres atendidas nas UBS apresentam sinais dessa condição, frequentemente exacerbados pela falta de suporte social, dificuldades econômicas e a presença de múltiplas comorbidades.

A análise da paciente destacou como fatores como a ausência de suporte emocional e financeiro, somados ao estigma social, contribuem para a negligência ao tratamento. Embora a paciente tivesse acesso aos serviços de saúde, sua experiência ilustra como a sobrecarga de responsabilidades e a falta de informação impactam diretamente a adesão ao tratamento. Esses achados são consistentes com a literatura, que enfatiza a necessidade de uma abordagem holística no tratamento da depressão pós-parto, considerando os aspectos sociais e emocionais que afetam a saúde mental das mulheres.

A partir da revisão da literatura e da análise dos dados, fica claro que intervenções direcionadas são fundamentais para melhorar o atendimento às mulheres em situação de vulnerabilidade. A promoção de campanhas educativas sobre saúde mental nas UBS, a capacitação de profissionais de saúde para lidar com questões sociais e emocionais e a criação de redes de apoio podem ser estratégias eficazes para aumentar a adesão ao tratamento e melhorar a qualidade de vida dessas mulheres.

Além disso, a pesquisa aponta para a urgência de políticas públicas que abordem a intersecção entre saúde mental e determinantes sociais, visando não apenas o tratamento, mas a prevenção da depressão pós-parto em populações vulneráveis. A colaboração entre profissionais de saúde, instituições de ensino e organizações não governamentais pode ser um caminho promissor para enfrentar os desafios que essas mulheres enfrentam.

Por fim, a continuidade de pesquisas sobre o tema é essencial para aprofundar a compreensão da relação entre saúde mental e determinantes sociais, contribuindo para a construção de intervenções mais efetivas e sensíveis às necessidades das mulheres atendidas nas UBS. As conclusões deste estudo ressaltam a importância de se olhar para a saúde mental de forma integrada, considerando as realidades sociais das pacientes, para que se possa promover uma atenção mais humanizada e eficaz no enfrentamento da depressão pós-parto.

 

[1] Graduando do Curso de Medicina do Centro Universitário UNDB.

[2] Graduando do Curso de Medicina do Centro Universitário UNDB.

[3] Doutorando em Ciência da Informação. Mestre em Cultura e Sociedade. Docente do Centro Universitário UNDB.

Referências

ALMEIDA, L. M.; NOGUEIRA, J. A. Determinantes sociais da saúde e suas implicações no Brasil. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, v. 20, n. 2, p. 123-130, 2020.

BAILEY, R. K.; PATEL, M.; BARKER, N. C.; ALI, S.; JABEEN, S. Major depressive disorder in the African American population. The Journal of the National Medical Association, v. 111, n. 3, p. 285-292, 2019.

HOWARD, L. M.; MOLYNEAUX, E.; DENNIS, C. L.; ROCHAT, T.; STEIN, A.; MILGROM, J. Non-psychotic mental disorders in the perinatal period. The Lancet, v. 384, n. 9956, p. 1775-1788, 2014.

MARMOT, M.; WILKINSON, R. G. Social determinants of health. Oxford: Oxford University Press, 2005.

O'HARA, M. W.; MCCABE, J. E. Postpartum depression: current status and future directions. Annual Review of Clinical Psychology, v. 9, p. 379-407, 2013.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Social determinants of mental health. WHO Publications, 2014.

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Publicado

2025-12-11

Como Citar

Almeida Barros, A., & Mendes, F. de C. (2025). A DEPRESSÃO PÓS-PARTO E DESIGUALDADE: A influência dos Determinantes Sociais na Saúde Mental de Mulheres Vulneráveis:. Revista De Estudos Multidisciplinares UNDB, 5(1). Recuperado de https://periodicos.undb.edu.br/index.php/rem/article/view/279

Edição

Seção

Artigos